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Saiba o que é e quem usa o Corporate Venture Capital

Corporate Venture Capital (CVC) movimenta empresas brasileiras, mas exige vários passos para a sua estruturação

CVC
por Redação julho 5, 2022
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O Corporate Venture Capital – ou CVC – é um tema que ganha espaço entre os líderes de negócios, segundo os professores Hugo Braga Tadeu e Gláucia Alves Guarcello, ambos da Fundação Dom Cabral (FDC), e autores de um artigo detalhado sobre o tema. De acordo com eles, o CVC acontece “quando organizações investem o seu próprio capital em startups, destacando o conhecimento das regras de mercado de capitais e tendo como principal objetivo a geração de benefícios estratégicos ao negócio, sendo complementares à governança da inovação”, explicam.

Eles citam o levantamento da BR Angels, em 2021, que constatou que metade das empresas brasileiras pretendia abrir um CVC até 2023. O tema também não é novo, já tendo movimentado o mercado norte-americano ainda na década de 1960. Mas os números atuais cresceram.

Os investimentos mundiais em CVC registram recordes de alocação de capital em 2021, com valor superior aos US$ 70 bilhões e mais de quatro mil acordos de investimentos entre grandes empresas e startups, segundo a plataforma CBInsights. No Brasil, o movimento também é de aquecimento, apesar do estágio inicial dos fundos e a busca pela sua consolidação.

“Alguns dados chamam atenção, considerando que mais de 60% dos CVCs brasileiros iniciaram as suas atividades nos últimos dois anos, alocando recursos em startups em fase inicial de negócio”, destacam os pesquisadores da FDC. A lista de empresas locais inclui exemplos como a Kortex Ventures (união entre Laboratório Sabin e Grupo Fleury), Wayra (Vivo), EDP, ZX Ventures (Ambev) e Globo Ventures. Todos são investidores em startups em estágio mais maduro e buscam sinergias com o negócio principal. A Vale e a Ânima Educação também estão ativas nesse mercado.

12 passos para estruturar uma Corporate Venture Capital

Além de dimensionar o mercado de CVC global e as perspectivas brasileiras, Hugo e Gláucia elaboram um roteiro com 12 passos para estruturar uma operação dessas no Brasil. O processo começa com uma estratégia de inovação e governança. Nessa etapa é preciso, entre outras coisas, compreender a importância da agenda do P&D, das práticas tradicionais de negócio, bem como ter um alinhamento com as equipes responsáveis pela transformação digital. Estabelecer uma tese e modelo de negócio é o segundo passo, seguido pela busca de recursos e investimentos, que podem variar desde a alocação a partir do próprio balanço até estruturação de um fundo de investimentos e participações.

O roteiro também envolve a sinergia com hubs de inovação e startups, ou seja, entender o ecossistema e inovação local e internacional. A estruturação continua com criação de um portfólio de investimentos e análises de riscos. Diversificar os investimentos em startups é necessário para reduzir o risco do capital envolvido, avaliam os professores da FDC. O tema portfólio de investimentos, continua, mas com foco agora na seleção de startups, que vai levar em conta os critérios consolidados na tese do CVC. O passo seguinte é avaliar os contratos e modelos de gestão, com objetivos bem estabelecidos, em especial a participação do investidor no negócio e a futura divisão dos lucros e o mútuo conversível (garantia de participação futura na sociedade pelo investidor).

O valuation e análises financeiras tradicionais também compõem o roteiro para estruturar uma CVC, além da determinação de qual será a equipe do fundo CVC, que exige profissionais com conhecimento de inovação, digital e do universo do mercado financeiro, entre outras habilidades. E ainda falando em times, a remuneração da equipe do fundo CVC faz parte da lista. Dados da FDC indicam que mais de 50% dessa remuneração é variável e com uma política agressiva mediante resultados alcançados. A criação de um comitê gestor do CVC é outro ponto importante da estruturação, ao lado da consideração dos aspectos tributários, legais e consultivos, que fecha o roteiro proposto.

Vale e Ânima já estruturaram seus CVCs

Duas experiências reais mostram o apelo do CVC na prática. O primeiro deles é o da Vale, que criou um fundo de US$ 100 milhões para investir em startups sustentáveis. A meta da companhia é adquirir ações minoritárias de empresas com foco na transição energética, por meio da Vale Ventures. O interesse da mineradora inclui projetos que envolvam desde a mudança de combustíveis fósseis para energia limpa até a redução da emissão de carbono, pontos importantes para uma empresa que determinou tornar-se neutra até 2025.

De forma geral, o conteúdo que atrairia a mineradora envolve o foco em descarbonização, mineração com zero resíduos, metais de transição energética e futuro da mineração. Um exemplo real seria o de empresas inovadoras que desenvolvem baterias utilizando metais produzidos pela Vale, incluindo níquel. O modus operandi envolve a aquisição de participações minoritárias, entre 3% e 5% do capital social das startups escolhidas. A Boston Metal foi a primeira a fazer parte do movimento: focada em descarbonização do aço, ela recebeu um aporte de US$ 6 milhões.

A Ânima Educação estabeleceu um fundo menor do que o da Vale – R$ 150 milhões – mas não é menos ambiciosa. Por meio de seu CVC – Ânima Ventures – ela pretende investir o valor nos próximos dez anos e não deve se limitar às chamadas edtechs, ou startups voltadas para soluções em educação. Ela segue a cartilha de diversificação pautada pelo roteiro da FDC. De acordo com Reynaldo Gama, gestor do Ânima Ventures, a empresa foca inicialmente em startups no estágio inicial de desenvolvimento e as que já possuem clientes e receita para ganhar escala (Series A).

Antes de formalizar o CVC, a companhia já tinha dois investimentos em startups: a MedRoom, voltada para o desenvolvimento de soluções em tecnologias imersivas no setor de saúde, e a Gama Academy, escola de tecnologia que seleciona e capacita profissionais para atuarem nas áreas de programação, design, marketing e vendas. As próximas incursões devem envolver healthtechs e fintechs, com destaque para aquelas que tragam soluções de crédito estudantil até acesso de funil de vendas. “Há muito ‘ed’ e pouco ‘tech’, e o que queremos fazer é exatamente fomentar isso”, explica Gama.