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O papel das escolas de negócios para a sociedade

A predisposição por ter uma atuação com repercussão na coesão social é permanente na Fundação Dom Cabral

escolas de negocios
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por: Emerson de Almeida

Co-fundador e Presidente da Diretoria Estatutária da Fundação Dom Cabral

A origem das instituições determina a sua finalidade. Com manifesto interesse de agregar valor a suas iniciativas, foram os empresários que criaram as primeiras escolas de negócios: École Superieur de Commerce de Paris, em 1819, pelo empresário Vital Roux e, oito anos depois, a Pest Academy of Commerce (hoje Budapeste Business School), pela Câmara de Comércio da cidade.

Meio século depois os Estados Unidos fundaram a Wharton Business School por decisão de uma universidade, a Pensilvania University.

Mais recentemente, nos anos 1960, a expectativa, não realizada, era de que o conteúdo eclético da universidade, como as ciências humanas e as ciências sociais, pudessem dosar o ensino de negócios cooptado pela noção de que o único propósito da empresa é gerar lucro para os acionistas, pregado por Milton Friedman.

Críticas às escolas de negócios

As críticas (esporadicamente elogios) sobre o papel dessas escolas vêm de longo tempo. Já na grande depressão de 1929, o diretor da Harvard Business School lembrou que elas não deveriam se limitar apenas ao benefício da elite. Elas teriam potencial de dar contribuição à sociedade e as próprias empresas via criação de soluções para problemas sociais. Décadas depois, Rakesh Khurana, também de Harvard, publicou o livro “A transformação Social das escolas de negócios americanas e a promessa não cumprida de gestão como profissão” (Princeton University Press).

O tom ácido ganhou evidência com a crise financeira de 2008, que abalou a economia mundial, implodiu bancos e ceifou milhares de empregos, induzindo perto de 10 mil pessoas ao suicídio por perda de emprego ou de propriedade (British Journal of Psychiatry). As escolas de negócios foram responsáveis pela formação no MBA de grande parte dos gestores que engolfou a economia ao carregar a mão na eficácia, resultados financeiros para acionistas e bônus generosos em detrimento da estabilidade dos negócios, lisura nas práticas gerenciais e princípios éticos.

Em anos recentes, o questionamento subiu de tom com a conjectura de que estariam contribuindo com a desigualdade social (Piet Naudé, diretor da Stellembosh Business School, África do Sul).

Três anos atrás veio a proposta mais radical: extinguir as escolas de negócios. O livro “Desligar as Escolas de Negócios: o que há de errado com a educação em administração” (Pluto Press), do professor inglês Martin Parker, argumenta que a educação nessas escolas é orientada pelo gerencialismo de pelo gerencialismo baseado na premissa de “o vencedor leva tudo”. Os alunos estariam sendo ensinados unicamente a maximizar o retorno do investimento à custa dos outros.

Reconhecendo estes questionamentos, vários diretores das escolas europeias admitiram que o ensino de teorias “amorais” levou a questionáveis ​​práticas gerenciais que defendiam a maximização do lucro acima da gestão corporativa responsável. Sugeriram adotar a abordagem dos principais desafios do capitalismo (sustentabilidade social e econômica com base na ética e na moralidade), a reorientação do foco criando resultados para uma ampla gama de partes interessadas e que essa mudança deverá  ser feita em parceria com os departamentos de ciências sociais e humanidades (especialmente a filosofia) , que poderiam ajudar a redefinir os negócios em termos de contribuição mais ampla de valor para a sociedade.

Dada a paternidade dos empresários ao criar as escolas de negócios, qual têm sido as posturas deles? Com uma sociedade crescentemente desigual, com o seu descrédito (tão grande quanto os políticos) e a pressão dos investidores, os presidentes de empresas começaram a mudar de postura.

Cento e oitenta e um presidentes de empresas americanas, que somam um faturamento perto de $7 trilhões de dólares, lançaram recentemente um manifesto em que assumem o compromisso em primeiro lugar com os consumidores, empregados, fornecedores e comunidade. A geração de lucro vem em segundo lugar. O documento do “Business Roundable”, que os representa, é assinado pelos presidentes de conglomerados como JP Morgan, Amazon, Apple, Walmart, Ford entre outros. A Blackrok, a maior gestora de investimentos, está atenta ao impacto que suas investidas têm no mundo: “Para prosperar, cada companhia terá de entregar não apenas performance financeira, mas mostrar uma contribuição para a sociedade”, disse Peter Fink, presidente da Blackrok.

No Brasil, a Natura lidera um movimento chamado Sistema B, uma coalização formada pelo Instituto Capitalismo Brasil, com apoio da Rede Brasil do Pacto Global e do Instituto Ethos. Ele se baseia em três pilares: economia de interdependência, investimento para que toda a cadeia produtiva seja justa e criação de valor para todos os stakeholders”. A ideia é que apenas a soma de todos pode gerar uma sociedade melhor. A mobilização inclui ainda campanhas que propõem novas definições clássicas do capitalismo: salário-mínimo, por exemplo, se transforma em salário justo.

A missão da Fundação Dom Cabral, vale relembrar, é contribuir para o desenvolvimento da sociedade por meio da capacitação de executivos, empresas e instituições públicas. Acreditamos que viemos para servir e não para nos servir da sociedade. Essa crença nos leva a propor em nossas ações educacionais conteúdos e práticas de gestão   impregnados pelo conceito do bem comum.

Ao longo do tempo, realizamos e apoiamos os nossos colegas nas ações de voluntariado, além de nos apoiar em parcerias e alianças de longo prazo. Preferimos a cooperação do oceano azul à competição do oceano vermelho (W. Chan Kim/Renée Mauborgne).

Pregamos que as empresas devem equilibrar a busca da melhor performance financeira com o máximo progresso para a sociedade (Subi Rangan).

A FDC tem sido imune a tropeços e equívocos? Nem sempre, mas a predisposição por ter uma atuação com repercussão na coesão social é permanente. Parafraseando “in memoriam” nosso fundador, Dom Serafim: “não custa nada fazer o bem”.

Um ano atrás demos um passo gigante nessa linha ao criarmos o Centro Social Cardeal Dom Serafim, com a finalidade de atuar diretamente na redução das desigualdades em várias frentes: capacitando instituições sociais e empreendedores da base da pirâmide, apoiando com bolsas universitários sem condições de pagar estudos e desenvolvendo menores aprendizes. 

* Emerson de Almeida é Co-fundador e Presidente da Diretoria Estatutária da Fundação Dom Cabral.