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ESG não é mais uma agenda, é um padrão, diz Sonia Consiglio

A pandemia e a guerra na Ucrânia, segundo Sonia Consiglio, podem atrapalhar, mas também são oportunidades de repensarmos a diversidade

por Redação maio 4, 2022

Propositora de uma letra E, de econômico, na frente do ESG, a especialista em sustentabilidade e SDG Pioneer pelo Pacto Global da ONU, Sonia Consiglio acredita que vivemos um “divisor de águas” para a implementação do ESG de forma estrutural no mundo. A pandemia e a guerra na Ucrânia, segundo ela, podem sim atrapalhar os resultados a médio prazo, mas também representam oportunidades de repensarmos a diversidade racial e de gêneros e a adoção mais acelerada de fontes energéticas não poluentes. Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva ao Seja Relevante.

Em que fase está o ESG?

Sonia Consiglio – Entendo que a agenda ESG é feita pela composição de todos os atores da sociedade: governo, empresas, sociedade civil organizada, imprensa, e cada um tem um papel. Esta não é uma agenda nova e ela vem sendo aprimorada em décadas de trabalho. Do ponto de vista corporativo, que é toda a minha experiência, ela evoluiu nas últimas duas décadas, muito em função do maior engajamento das empresas. Por isso eu considero que estamos em um momento crucial, em um verdadeiro divisor de águas para que o ESG entre de forma estratégica e estrutural nas empresas.

Há apoio econômico para isso?

Sonia Consiglio – Sim. Nos últimos anos houve uma força muito grande dos investidores, que agora se tornaram protagonistas no estímulo à adoção do ESG. Isso é evidenciado principalmente na hora em que eles alocam capital, escolhendo empresas que têm esse compromisso. A sigla ESG já era usada na comunidade dos investidores, mas, com a pandemia, ela ganhou visibilidade ampla e ficou forte, deixando claro que o mundo é interligado nas questões de saúde, social e meio ambiente. O conjunto desses fatores tornou o ESG uma necessidade padrão, que vem entrando forte no mainstream econômico. O ESG deixou de ser uma agenda e se tornou um padrão, inclusive solidificando mercados, como o de carbono.

Pode dar mais exemplos?

Sonia Consiglio – Talvez os principais venham da União Europeia, com suas medidas para a realização de negócios, como taxação de carbono e proibição de importação de produtos que venham do desmatamento, por exemplo. Outro fator é a alta liderança das empresas, com os conselhos de administração entendendo de fato a importância da agenda ESG. Nesse aspecto, avalio que estamos em um momento de consolidação – que é mais um componente importante para o divisor de águas que estamos vivendo nesses temas – induzindo ao estabelecimento do ESG de forma estrutural, de base mesmo, no ambiente corporativo.

Outro exemplo vem da  Nasdaq, segunda maior bolsa de valores dos Estados Unidos e do mundo: as empresas listadas lá precisam agora ter ao menos dois membros de grupos subrepresentados. Isso mostra que se começa a cobrar das empresas mais ações concretas via mercado e o próximo passo é tornar essas ações mais intensas.

O conflito da Rússia com a Ucrânia pode atrasar o ESG, principalmente dada a problemática energética que a Europa passa a ter sem o fornecimento de gás russo?

Sonia Consiglio – Todo desafio tem oportunidade, mas a guerra de fato pode nos fazer dar dois passos para trás antes de continuar avançando. Digo isso também olhando para a pandemia, que já tinha provocado a possibilidade de atraso no atingimento das metas dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Organizações das Nações Unidas (17 ODS da ONU) para 2030. E agora a guerra vem na mesma linha. Enfim, tivemos um desafio tão grande como o da pandemia e, antes mesmo de ele acabar, vem a guerra, que aumenta a desigualdade, exige deslocamentos de milhares de pessoas e, assim, afeta diretamente as questões sociais e ambientais, como as fontes de energia, que você pergunta. Por outro lado, ela é uma oportunidade de nos estimular a debater as questões de dependência comercial e as próprias fontes de energia. Hoje, mais do que nunca, é crucial que discutamos novas fontes de energia, e o resultado disso pode ser caminharmos mais estruturalmente para fontes renováveis e não poluentes.

Você falou das questões sociais, condensadas na letra S, do ESG, algumas vezes. Esse aspecto tem recebido a devida atenção quando comparado com os outros dois eixos (meio ambiente e governança) do ESG?

Sonia Consiglio – Desde o início de 2020, as pessoas se conectam de forma diferente por causa da pandemia; costumo dizer que “descobrimos que somos seres humanos”. Tivemos de apoiar pequenos empreendedores e pessoas em situação de vulnerabilidade, por exemplo, para tentar conter os problemas econômicos e sociais derivados dessa crise humanitária de saúde. Isso nos fez avançar e esse é o motivo pelo qual eu não concordo que o S está preterido. Inclusive, acredito que este ano de 2022 será o ano de destaque do S. 

Os problemas ambientais e de governança são mais tangíveis e talvez por isso pareçam ter sido atacados primeiro. Já o social é empírico, silencioso. Um caso de violência doméstica acontece ali, entre quatro paredes, e muitas vezes não é exposto. Mas a pandemia exacerbou a desigualdade, jogando luz sobre essas questões. É verdade que precisamos ser mais rápidos e intensos nas ações sociais, mas o avanço é que colocamos o tema na pauta, e a pauta tem sido intensificada.

Casos extremos como o do George Floyd e as constatações de desigualdade da mulher no mercado de trabalho ampliaram as discussões sobre diversidade a tal ponto que, quando não vemos mulheres e negros em conselhos de administração de empresas hoje em dia, ficamos incomodados.

Em 2020 você propôs inserir um E, de econômico, na frente da sigla ESG (EESG). Pode explicar o conceito?

Sonia Consiglio – Quando propus o EESG foi para deixar claro que as questões ambientais, sociais e de governança precisam estar ligadas ao E, de econômico. Ao mesmo tempo, isso representa o novo capitalismo, mostrando que, em termos empresariais, as questões econômicas e financeiras não são mais suficientes para dar conta do desafio que o mundo enfrenta. A sigla EESG é a proposta de representar o mundo interconectado, para tomadas de decisões holísticas. 

Quais são os desafios para o engajamento amplo do ESG?

Sonia Consiglio – O primeiro é o que chamo de “letramento”: as lideranças de todos os setores e atividades (empresarial, governos, sociedade civil, reguladores…) precisam entender profundamente do que estamos falando, a partir de fatos e dados, riscos e oportunidades envolvidos na agenda ESG. Quando uma liderança entende, ela assume o pertencimento e faz acontecer.

O segundo desafio é justamente a liderança; precisamos que os líderes tomem decisões de fato. Isso consiste no seu poder protagonista para gerar mudanças estruturais. Há na sequência outros desafios, como definição de ações, metas e indicadores, engajamento de times e novos modelos de gestão para introduzir o conceito ESG, além de identificar tecnologias para o desenvolvimento dessa agenda. Mas tudo começa no conhecimento e na liderança.