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Escola ataca déficit de profissionais de TI e também a questão social da educação

Matheus Goyas, CEO e um dos fundadores da Trybe, conta como montou modelo de negócios para atacar déficit de profissionais de TI

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por Redação junho 27, 2022
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O déficit de profissionais de tecnologia – algo que pode chegar a 800 mil até 2025, segundo a Brasscom – é o foco do negócio da Trybe, uma escola de programadores web fundada por jovens de Belo Horizonte (MG). O propósito é oferecer a formação completa, até a preparação para o mercado, com possibilidade de pagamento após a colocação dos novos profissionais no mercado. 

“Apoiamos  as pessoas que não puderem pagar durante o curso a estudar da mesma forma. Depois, quando ela estiver no mercado de trabalho – e somente com renda mensal a partir de R$ 3 mil reais – começa a pagar”, resume Matheus Goyas, CEO e um dos fundadores da Trybe.

Filho de professora da rede pública e educador por natureza, ele conta, nesta entrevista, como montou esse modelo de negócios, além de detalhar a sustentabilidade da operação e de revelar orgulho por estar atacando não só o déficit de profissionais de TI, mas também o problema social da educação. Acompanhe.

Você pode começar explicando o negócio da Trybe?

Matheus Goyas – Trabalhamos com educação há mais de uma década. Venho de classe média baixa, a minha mãe foi a primeira pessoa da família com nível superior e ela é professora. Então a educação sempre foi algo bastante presente na minha casa e isso me fez estudar. Aos 14 anos eu consegui bolsa de estudos no Colégio Santo Antônio, um dos melhores de Belo Horizonte, onde concluí o ensino médio e conheci os meus sócios. Como o Santo Antônio é um colégio de condição socioeconômica maior, eu comecei a dar aulas particulares, geralmente de matemática, para fazer renda e poder acompanhar os lazeres dos meus colegas. Não sabia, mas estava começando aí a minha trajetória como educador.

Aos 18 anos, eu – já com os meus sócios – criamos uma escola infantil e, em 2012, fundamos a primeira startup de tecnologia para as pessoas se prepararem de graça para o ENEM.

Em 2017 fomos incorporados pela Somos, um dos grandes grupos de educação do país, onde trabalhamos como sócios executivos com um time de 74 pessoas. Ficamos até o final de 2018, quando saímos para montar a Trybe. O curioso é que 60, dessas 74 pessoas, nos acompanharam.

E por quê montaram a Trybe?

Matheus Goyas Existe uma demanda não atendida no mundo inteiro, especialmente nos países em desenvolvimento, por formação. Confirmamos isso após um tour internacional, onde vimos que a educação de qualidade só é massificada quando o estado proporciona. Caso contrário, cria-se, como aqui, uma barreira impeditiva para quem vem de vulnerabilidade econômica. Isso nos motivou a criar uma escola de sucesso compartilhado no Brasil, onde os alunos só comecem a pagar depois de estarem empregados e com renda. Decidimos fazer isso com foco em um só produto, que é a formação de desenvolvedores de software e tecnologia. Essa decisão nos permite dedicar em oferecer uma educação muito boa, o que é necessário, inclusive, para sustentar o modelo de negócio da Trybe, já que só recebemos apenas se o aluno tiver qualidade suficiente para ocupar uma vaga no mercado de trabalho.

Os setores de tecnologia são os de maior demanda de emprego no Brasil. Isso não pesou na escolha do nicho de negócios da Trybe?

Matheus Goyas – Quando saímos do grupo Somos, queríamos construir algo que mantivesse a cultura de oportunidade para as pessoas. Pensamos em vários nichos nesse sentido, como saúde, educação e segurança. Queríamos algo que, no futuro, nos orgulhasse de ter atacado um problema para fazer diferença na sociedade. Então chegamos à conclusão de que queríamos gerar emprego e renda, num contexto no qual, mesmo antes da pandemia, tínhamos 14 milhões de desempregados e outros 42 milhões de trabalhadores que não estavam formalmente desempregados, mas que, na prática, não tinham renda necessária. Depois disso, avaliamos um negócio que teria chance de dar certo e focamos em educação porque já trabalhávamos com isso e conhecíamos o déficit do mercado de tecnologia.

Afunilamos a pesquisa até entender o tamanho do impacto que poderíamos gerar na vida das pessoas e também no mercado. A escola de programadores se demonstrou algo com grande demanda, o que garantiria público suficiente para retermos gente talentosa

Que tipos de programadores a Trybe está formando?

Matheus Goyas – Focamos na formação de programadores web, pois sabemos que, de todas as profissões digitais, a programação de softwares é a de maior demanda. Atualmente, há mais de 100 mil vagas não preenchidas nesse setor e a programação web é a porta de entrada.

Depois dessa formação, temos vários casos de profissionais que estudaram conosco e acabaram se desenvolvendo para trabalhar em áreas conexas e de desenvolvimento mais complexo. Inclusive, a formação da Trybe dá uma base bem interessante para isso. Esses dias mesmo acompanhei uma pessoa formada por nós pelo Linkedin e vi que ela estava sendo promovida para a área de data science de uma empresa.

Você falou que a formação da Trybe dá uma base interessante para outros avanços. Pode exemplificar?

Matheus Goyas – Oferecemos uma perspectiva pragmática, de processos e pessoas. Há muita coisa simples e que gera grandes resultados no universo da programação. Então, mostramos que é possível fazer várias implementações antes de tentar desenvolver a “ciência de foguetes”. Em um programa do Google Web Accelerator que participei, foi demonstrado que em um simples aprendizado de máquina – apenas com opção A e B – cerca de 85% do resultado desejado é obtido. Depois eles mostraram que, na maioria dos casos, os desenvolvimentos mais complexos traziam apenas melhorias incrementais sobre essas alcançadas no aprendizado de máquina simples. Esse raciocínio, com uma base consistente do básico, é o que buscamos oferecer aos alunos.

Qual é o déficit educacional para profissionais de tecnologia e como a sociedade pode atacá-lo?

profissionais de tecnologia

Matheus Goyas – Segundo a Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais), teremos, até 2025, quase 800 mil vagas abertas e não preenchidas em tecnologia. Hoje já há um volume grande de vagas em aberto e isso vai aumentar, se nada for feito. E estamos falando de um mercado de renda média com salários na faixa de R$ 5,8 mil, o que demonstra a ligação dessas vagas em aberto com a economia do país. Por isso digo que o déficit de profissionais de tecnologia é um problema de estado e sociedade deve acompanhar.

Então você defende que a Trybe ataca parte desse problema. Pode explicar como?

Matheus Goyas – Desenvolvemos uma metodologia chamada Modelo de Sucesso Compartilhado (MSC). Isso nada mais é do que um financiamento estudantil, que vai apoiar as pessoas que não puderem pagar durante o curso a fazê-lo da mesma forma. Depois, quando elas estiverem no mercado de trabalho – e somente com renda mensal a partir de R$ 3 mil reais – elas começam a pagar o curso.

Se a pessoa não conseguir trabalho ou se tiver salário abaixo disso, ela simplesmente não paga. E essa situação dura cinco anos após o término do curso. Portanto, se passar esse período e a pessoa não estiver empregada com salário digno, a dívida é extinta.

O modelo é sustentável?

Matheus Goyas – Sim. A nossa taxa de empregabilidade é de 92% em até 90 dias após a formatura. Hoje, temos mais de 1 mil pessoas formadas pela Trybe trabalhando atuando no mercado e, analisando um universo de tempo maior, de 180 dias, a taxa de empregabilidade chega a 95%. Ou seja: quase sempre os alunos são empregados e todos eles, sem exceção, pagam corretamente o curso quando passam a ter renda. Reafirmo: a nossa taxa de inadimplência entre os que se formaram e estão empregados com renda digna é zero. Além disso, cerca de 20% dos alunos pagam enquanto estão fazendo o curso, o que também nos auxilia no fluxo financeiro.

Esses dados são relativos a quantos alunos?

Matheus Goyas – Já formamos mais de mil alunos e temos 3,5 mil estudantes atualmente. É importante frisar que o processo descrito acima é feito com muita transparência, sem pegadinhas e, depois de formado e empregado com salário acima de R$ 3 mil, o aluno paga o percentual de 17% do seu salário para a escola, e isso é feito até que o valor do curso seja quitado.

Quanto custa o curso?

Matheus Goyas – Varia de acordo com a época, pois consideramos inflação e outros indicadores financeiros. Mas, atualmente, o teto é de R$ 40 mil e esse valor pode ser pago por até cinco anos. Mas geralmente é pago mais rápido, pois a média salarial dos profissionais formados pela Trybe é de R$ 6,3 mil mensais.