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Cenário atual pode pavimentar caminho de futura crise financeira

Artigo de Carlos Primo Braga, da Fundação Dom Cabral, alerta para desdobramentos da crise atual na Ucrânia

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por Redação abril 18, 2022
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A guerra da Ucrânia, que já está impactando no aumento dos preços de combustíveis e de alimentos, pode reviver um pesadelo do passado: o conflito do Yom Kippur, em 1973, o qual originou o embargo de exportações de petróleo árabe para países que apoiavam Israel na guerra com seus vizinhos. O que há em comum entre as duas situações é a comercialização de energia e, no caso atual, o fornecimento de gás natural russo para seus vizinhos.

Se na década de 1970 o embargo árabe elevou em 300% o preço do petróleo e causou forte recessão nos Estados Unidos, a crise no Leste Europeu pode ter impactos igualmente fortes. Se o suprimento de gás natural russo for cortado totalmente, poderá ter um impacto negativo de 3% no crescimento europeu deste ano.

A avaliação é do professor associado da Fundação Dom Cabral, Carlos Primo Braga, ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial. Para ele, caso a crise escale para o cenário acima, os bancos centrais de todo o mundo terão uma agenda ainda mais complicada. Ele lembra que as últimas décadas foram marcadas pela narrativa de que os bancos centrais haviam dominado o dragão inflacionário nos países industrializados. “Mesmo frente a crises financeiras e o superciclo de commodities, o controle da inflação foi implementado com sucesso na maioria dos países. A resposta das autoridades monetárias à pandemia, porém, traduziu-se em uma expansão recorde de liquidez”, avalia Braga.

Como é pavimentada a crise financeira

De acordo com ele, a “conta está chegando” na forma de um aumento significativo de pressões inflacionárias, em paralelo com a disrupção da oferta. As previsões de inflação, em janeiro desse ano, teriam chegado a 3,9% nos países industrializados e a 5,9% nas economias emergentes. O que ele avalia como cenário é a adoção de políticas monetárias restritivas. É o caso do Federal Reserve, dos Estados Unidos, que deve iniciar um aumento das taxas de juros a partir de março com o objetivo de eliminar gradualmente a política de flexibilização quantitativa. A mesma direção deve ser tomada pelo Banco da Inglaterra e pelo Banco Central Europeu.

Para Braga, a complexidades dos ajustes é que não se sabe até que ponto essa mudança de regime poderá ser implementada de forma suave em função da crise geopolítica atual e de seus desdobramentos sobre os preços de energia e de alimentos. A pilotagem, segundo o professor da FDC, torna-se mais complicada. Além de gerar uma queda na atividade econômica, a crise atual no Leste Europeu pode pavimentar o caminho para uma crise financeira no futuro.